
Riscos psicossociais na NR-1 e o resto da SST: do PGR ao S-2240 num só sistema
A técnica de segurança chega na metalúrgica para atualizar o PGR. Ruído, poeira e máquinas ela já sabe medir. Desta vez o cliente pergunta outra coisa: "e a parte psicossocial, como vocês vão fazer?". A ideia mais rápida é passar uma folha de perguntas na reunião de segurança. No dia seguinte, a dúvida aparece: com cinco pessoas na pintura, o supervisor consegue adivinhar quem respondeu o quê. E aí ninguém responde com sinceridade.
Desde maio de 2026, os riscos psicossociais na NR-1 fazem parte do gerenciamento de riscos ocupacionais (GRO) de toda empresa, ao lado dos riscos físicos, químicos, biológicos, de acidentes e ergonômicos. Clínicas ocupacionais e assessorias de SST passaram a ter que identificar, avaliar e registrar esses fatores no PGR dos seus clientes.
Neste artigo você vai ver o que a norma pede, por que o anonimato é a parte mais difícil e como o RAM SST, sistema de Saúde e Segurança do Trabalho do Sistema RAM e da Essencial ST, faz a pesquisa por setor e leva o resultado para o inventário de riscos. Depois, como o mesmo inventário alimenta o resto da rotina de SST: controle de EPI, PCMSO, ASO, laudos (LTCAT, insalubridade e periculosidade) e o evento S-2240 do eSocial. As telas são reais, de uma assessoria de demonstração com dados fictícios.
O que mudou na NR-1
A Portaria MTE nº 1.419/2024 incluiu os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no item 1.5.3.1.4 da NR-1. Depois de um adiamento, a exigência começou a valer em 26 de maio de 2026. Na prática, o PGR passa a ter que mostrar que a empresa:
- Identificou os fatores: como excesso de demandas, baixo controle sobre o trabalho, pouca clareza de função, falta de apoio, assédio e má gestão de mudanças.
- Avaliou o risco: com severidade e probabilidade, do mesmo jeito que avalia os outros riscos do inventário.
- Planejou ações: com responsável e prazo no plano de ação do PGR.
- Ouviu os trabalhadores: a participação de quem faz o trabalho é parte do processo, não um detalhe.
O Guia do MTE sobre fatores de riscos psicossociais traz uma lista de 13 fatores, que é exemplificativa: a empresa pode encontrar outros.
O questionário é obrigatório?
Não. Nas perguntas e respostas sobre o GRO publicadas pelo MTE em maio de 2026, o ministério diz que a norma não define ferramenta oficial e que a escolha da metodologia é da organização. Diz também que um questionário, sozinho, não basta: ele é uma das fontes, junto com a observação do trabalho e a conversa com as pessoas. E lembra que o exame médico periódico não substitui a avaliação de riscos, porque o foco é a organização do trabalho, não a saúde de cada um.
Por que o anonimato é a parte difícil
Um questionário sobre o ambiente de trabalho pergunta se a chefia ouve, se há tempo para as tarefas e se alguém sofreu humilhação ou ameaça. Ninguém responde isso com sinceridade se acha que o chefe vai saber quem disse. E o risco de identificação é real em empresa pequena, mesmo sem pedir nome:
- Setor pequeno: com três pessoas na expedição, a média do setor já diz muito sobre cada uma.
- Data e hora da resposta: quem respondeu às 7h10, logo depois do turno da noite, é fácil de adivinhar.
- Resultado parcial: quem olha a média antes e depois de uma nova resposta descobre o que aquela pessoa marcou.
- Subtração: se o total da empresa e os setores grandes aparecem, o setor pequeno sai na conta de menos.
O Manual do GRO do MTE também orienta a não avaliar sintomas individuais: o que se estuda é o ambiente de trabalho e seus setores, não cada funcionário.

A pesquisa no RAM SST, passo a passo
No RAM SST, a pesquisa fica dentro do PGR, na aba Psicossocial. O questionário é o COPSOQ II-Br, a versão curta brasileira do Copenhagen Psychosocial Questionnaire, validada por pesquisadores brasileiros e publicada na Revista de Saúde Pública em 2021. São 40 perguntas, cerca de 10 minutos para responder.
1. Abrir a pesquisa e gerar os códigos
O profissional escolhe a empresa, o período em que a pesquisa fica aberta, os setores e o número mínimo de respostas por setor (de 3 a 20). O sistema gera um código de uso único para cada trabalhador do setor. Os códigos saem numa folha em PDF para recortar e entregar, cada um com QR Code, ou numa lista de links para mandar pelo WhatsApp.
O código diz só a qual setor a resposta pertence. Ele não é ligado a nenhum funcionário, não pede nome nem CPF e vale uma resposta só.
2. O trabalhador responde no celular


A pesquisa no celular do trabalhador: as regras do anonimato antes e as perguntas com a barra de progresso (dados fictícios).
Antes da primeira pergunta, a tela explica as regras: a participação é voluntária, o participante é anônimo e o que se estuda é o local de trabalho, não cada pessoa. Não é preciso instalar aplicativo nem criar conta.
3. O resultado só aparece depois de encerrar
Enquanto a pesquisa está aberta, o profissional vê só a participação: quantos códigos foram usados em cada setor. As notas só aparecem depois que a pesquisa é encerrada. Assim ninguém consegue comparar o resultado antes e depois de uma resposta.
O sistema também toma outros cuidados para que ninguém seja identificado:
- Resposta guardada sem o código e sem a hora: depois de gravada, não dá para ligar a resposta ao papel entregue nem ao horário.
- Mínimo por setor: setor que não alcançou o mínimo de respostas não ganha resultado próprio.
- Demais setores: os setores pequenos entram somados num grupo "Demais setores" quando, juntos, alcançam o mínimo. Se não alcançam, ficam de fora do resultado e também do total da empresa, para não aparecer na conta de menos.
- Aviso de participação baixa: abaixo de 60% de participação, o sistema avisa que o resultado pode não representar o setor.

Cada escala do questionário ganha uma nota de 0 a 4 e uma cor: favorável, intermediário ou risco para a saúde. As escalas estão agrupadas nos domínios do COPSOQ: exigências no trabalho, organização e conteúdo, relações e liderança, interface trabalho-indivíduo, valores no local de trabalho e saúde e bem-estar. As perguntas sobre comportamentos ofensivos (assédio sexual, ameaças, violência física e bullying) mostram quantos relatos houve no setor e de quem vieram: colegas, chefia, subordinados ou clientes.
Do resultado ao inventário de riscos do PGR
A pesquisa só tem valor para a NR-1 se virar risco avaliado e ação. No RAM SST, o resultado de cada setor já sai organizado pelos fatores do Guia do MTE. Cada escala que ficou no amarelo ou no vermelho aponta o fator a que pertence, com a nota como evidência.

O botão Incluir no inventário abre o cadastro de um risco novo no GHE do setor, já com o fator, o tipo psicossocial e a evidência preenchidos. A severidade e a probabilidade não vêm prontas: quem decide é o profissional, na mesma matriz 5×5 usada para os outros riscos. A partir daí, o fator psicossocial segue o caminho de qualquer risco do PGR: entra na matriz, recebe ações no plano de ação e aparece no documento emitido.
O sistema também lembra o que o questionário não mede. Três fatores da lista do MTE ficam de fora do COPSOQ curto: baixa demanda (subcarga), trabalho em condições de difícil comunicação e trabalho remoto e isolado. A tela avisa que esses devem ser avaliados por observação e entrevista. Eles, e qualquer outro fator, podem ser lançados direto no inventário pelo catálogo de perigos, que já traz os 13 fatores do guia e medidas de controle sugeridas.
O mesmo inventário alimenta o resto da SST
O fator psicossocial é só um dos riscos do inventário. No RAM SST, o inventário de cada GHE (setor + cargos) é a base de tudo o que vem depois: o EPI que cada funcionário precisa receber, os exames do PCMSO, o vencimento do ASO, os laudos e o S-2240. O profissional cadastra o risco uma vez e ele aparece em todos esses lugares. Quando o risco muda, a nova avaliação encerra a anterior e o histórico fica guardado.
Controle de EPI com CA oficial e ficha da NR-06
O catálogo de EPI busca o Certificado de Aprovação na base oficial do Ministério do Trabalho e mostra a validade de cada CA. O EPI exigido de cada funcionário sai dos riscos do GHE dele. As entregas podem ser individuais (inclusive de um item só, quando o EPI estraga ou some) ou em massa, por EPI e setor, com um recibo por pessoa. Cada EPI tem prazo de troca, e a lista mostra o que não foi entregue e o que está para vencer.

A ficha de EPI da NR-06 sai em PDF por funcionário. Para auditoria, o botão Fichas do período gera, de uma vez, uma página por funcionário com as entregas do mês ou do intervalo escolhido.
PCMSO a partir dos riscos do PGR
O PCMSO já vem com as regras da NR-07 cadastradas: exame clínico anual para quem tem risco e a cada dois anos para quem não tem, audiometria para ruído (Anexo II), raio-X e espirometria para poeiras minerais (Anexo III) e os indicadores biológicos dos Quadros 1 e 2. Com essas regras, o sistema sugere os exames de cada GHE pelos riscos do inventário, com a periodicidade e os momentos (admissional, periódico, retorno, mudança de risco e demissional).

A sugestão nunca muda o GHE sozinha: o médico confere e aplica. Os exames usam os códigos da Tabela 27 do eSocial, e o documento do PCMSO é emitido em versões, para a assinatura do médico responsável.
ASO e controle de vencimento
O ASO é feito para os cinco tipos (admissional, periódico, de retorno ao trabalho, de mudança de risco e demissional) e já traz os exames do PCMSO do funcionário. No periódico, entram só os exames que vencem nos próximos 30 dias, mais o clínico. O ASO também registra as aptidões para trabalho em altura, espaço confinado e eletricidade, e sai em PDF com duas vias.

A aba Vencimentos calcula, exame por exame, a data do último exame mais a periodicidade do PCMSO. Para clínicas, o sistema tem ainda o atendimento por etapas (recepção, exames e médico), a guia de encaminhamento, a anamnese e a audiometria com os limiares e a interpretação do Anexo II da NR-07.
Laudos: LTCAT, insalubridade e periculosidade
As definições de laudo ficam no próprio risco do inventário. Para o LTCAT, o profissional diz se o agente gera aposentadoria especial e o tempo de contribuição (15, 20 ou 25 anos), e o sistema mostra o código da GFIP e o grau de exposição do eSocial. Para a insalubridade, escolhe o anexo da NR-15 e o grau (10%, 20% ou 40%). Para a periculosidade, o anexo da NR-16 (30%).

A tela avisa os casos que mais geram dúvida. No ruído, o EPI, mesmo eficaz, não descaracteriza o tempo especial (STF, Tema 555). Na insalubridade, o EPI com CA válido e uso comprovado pode neutralizar o adicional (NR-15, item 15.4.1). O LTCAT e o laudo de insalubridade e periculosidade são documentos com versão e vigência, e só um engenheiro de segurança ou médico do trabalho pode ser o responsável técnico. A tela de laudos também avisa quando um estabelecimento tem GHE no PGR, mas nenhum LTCAT vigente.
eSocial S-2240 a partir do inventário
O S-2240 (condições ambientais do trabalho) é montado sozinho a partir do inventário: um evento por funcionário, com os agentes da Tabela 24 dos riscos vigentes do GHE dele, os EPIs e o responsável pelos registros ambientais. A lista mostra quem está sem evento, quem tem pendência e quem ficou desatualizado porque o risco mudou depois do último XML.

O XML segue o leiaute S-1.3 do eSocial e foi validado contra o esquema oficial. Hoje ele sai sem a assinatura digital, para ser importado no sistema que a empresa já usa para transmitir. A transmissão direta com o certificado A1, junto com o S-2210 e o S-2220, está em desenvolvimento.
Pesquisa no papel x pesquisa no RAM SST
| Folha ou formulário genérico | RAM SST | |
|---|---|---|
| Anonimato | Depende de quem recolhe e digita | Código de uso único, resposta sem código e sem hora |
| Setor pequeno | Média aparece mesmo com 2 respostas | Mínimo por setor e grupo "Demais setores" |
| Apuração | Planilha montada à mão | Notas e cores calculadas ao encerrar |
| Ligação com o PGR | Copiar e colar no documento | Fator vira risco do GHE com a evidência |
| Avaliação do risco | Fora do inventário | Na mesma matriz 5×5 dos outros riscos |
| Registro | Papel guardado em pasta | Relatório em PDF da pesquisa |
Perguntas frequentes
O trabalhador precisa informar nome ou CPF?
Não. Ele recebe um código, digita ou lê o QR Code e responde. O código serve só para saber o setor e para não deixar a mesma pessoa responder duas vezes. Depois de gravada, a resposta fica sem o código e sem a hora.
O que acontece com um setor que tem só duas pessoas?
Ele não ganha resultado próprio. As respostas entram no grupo "Demais setores" junto com outros setores pequenos, se juntos alcançarem o mínimo. Se não alcançarem, ficam fora do resultado e do total da empresa.
Só o questionário cumpre a NR-1?
Não. Segundo o MTE, o questionário é uma das fontes, mas não basta sozinho. O resultado precisa virar risco avaliado no inventário, com plano de ação, e os fatores que o questionário não mede precisam ser avaliados por observação e entrevista. O RAM SST leva o resultado para o inventário e indica esses fatores.
Posso avaliar os fatores psicossociais sem fazer a pesquisa?
Pode. A norma não obriga questionário. No RAM SST, os fatores do guia do MTE estão no catálogo de perigos e podem ser lançados direto no inventário do GHE, como qualquer outro risco.
Quanto tempo o trabalhador leva para responder?
Cerca de 10 minutos. São as 40 perguntas da versão curta brasileira do COPSOQ II, no celular, sem instalar aplicativo.
O RAM SST já transmite o S-2240 para o governo?
Ainda não. Ele monta o evento a partir do inventário e gera o XML no leiaute oficial, validado contra o esquema do eSocial, para importar no sistema que a empresa usa. A transmissão com o certificado A1 está em desenvolvimento.
Se eu mudar um risco, preciso refazer o PCMSO, o EPI e o S-2240 à mão?
Não. O inventário é a base de tudo: os EPIs exigidos e as sugestões de exames do PCMSO seguem os riscos vigentes do GHE, e o S-2240 do funcionário aparece como desatualizado para gerar de novo.
Conclusão
A inclusão dos riscos psicossociais na NR-1 pede que o PGR trate a organização do trabalho com o mesmo cuidado que trata o ruído ou a poeira: identificar, avaliar, agir e registrar. A parte mais delicada é ouvir os trabalhadores sem expor ninguém. Sem isso, as respostas não são sinceras e o resultado não serve para nada.
No RAM SST, a pesquisa anônima por setor, o resultado que só aparece no fim e a passagem direta para o inventário do GHE deixam esse trabalho dentro do mesmo sistema do PGR. E é desse mesmo inventário que saem o controle de EPI, o PCMSO, o vencimento do ASO, o LTCAT, o laudo de insalubridade e periculosidade e o S-2240. A clínica ou a assessoria cadastra o risco uma vez e entrega ao cliente documentos que conversam entre si.
Do PGR ao S-2240, com os riscos psicossociais incluídos
PGR, pesquisa psicossocial, EPI, PCMSO, ASO, LTCAT, laudo de insalubridade e periculosidade e S-2240 no mesmo sistema. Uma parceria do Sistema RAM com a Essencial ST.